E assim as coisas continuaram acontecendo entre os dois, em quase sustos, um grande por acaso com cacoetes de gestos definitivos. Com o Nunca Mais se oferecendo o tempo todo, bastaria dizer foi um prazer ter te conhecido, bastaria não trocar telefones nem e-mails e enterrar a casualidade com a cal da sabedoria — nada poderia ser definitivo, os encontros duravam duas horas ou duas décadas ou duas vezes isso, mas em algum momento necessariamente seria o fim. De todos os grandes amores. De todos os pequenos. De todas as juras, das promessas, de todos os na-alegria-e-na-tristeza. De todos os não amores, os desamores, os casamentos para sempre, os rancores para sempre, de todas as paralelas que só se viabilizam na abstração da geometria, de todas as pequenas paixões e de todas as grandes paixões, de tudo que para na antessala da paixão, de todos os vínculos não experimentados, de todos.
LISBOA, A. Rakushisha. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
O recurso que promove a progressão textual, contribuindo para a construção da ideia de que as relações amorosas têm um enredo comum, é a
A questão avalia a habilidade de reconhecer recursos de coesão textual — especificamente a anáfora, que é a repetição de um elemento no início de sucessivas orações ou sintagmas para criar efeito de acumulação e universalidade.
No trecho, o pronome indefinido "todos/todas/tudo" é repetido sistematicamente ao longo de uma longa enumeração: "De todos os grandes amores. De todos os pequenos. De todas as juras [...] De todos os não amores [...] de todas as pequenas paixões e de todas as grandes paixões [...] de todos". Essa repetição funciona como elemento de progressão textual porque encadeia diferentes tipos de relações amorosas sob um denominador comum, sugerindo que todas elas — independentemente de intensidade, duração ou natureza — compartilham o mesmo enredo: o inevitável fim.
Os outros recursos citados existem no texto, mas não constroem essa ideia de universalidade. O travessão introduz um esclarecimento parentético; o pronome "isso" faz referência pontual a "duas décadas"; a conjunção "mas" apenas marca contraste entre a possibilidade de evitar o vínculo e a certeza do fim; e a substantivação de "o Nunca Mais" cria uma imagem poética, mas não organiza a progressão do argumento central.
Todas as questões do ENEM · Simulado ENEM — questões com gabarito e explicação, grátis e sem cadastro.