Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular um muro quebrando o corte de alguns cacos, ou jogando um couro por cima, era apanhado pela proibição, nhoc — e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango.
VEIGA, J. J. Sombras de reis barbudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado pelo
O texto de J. J. Veiga pertence ao gênero da literatura fantástica de cunho político, em que elementos ficcionais e absurdos são usados como alegoria para criticar regimes autoritários. A obra Sombras de reis barbudos foi publicada em 1978, em plena ditadura militar brasileira (1964–1985).
O trecho apresenta uma Companhia que impõe proibições cada vez mais arbitrárias e severas à população — algumas sem sentido prático algum («cuspir pra cima», «tapar o sol com peneira»), outras claramente coercitivas (pular muros). A dupla camada de punição — os cacos de garrafa e a proibição formal — e o gesto do pai simbolizando execução revelam um clima de medo permanente infiltrado no cotidiano, onde até ações corriqueiras se tornam perigosas.
A narração em voz infantil reforça esse efeito: o menino não compreende plenamente o sistema opressor, mas o descreve com naturalidade perturbadora, mostrando como o medo se incorpora ao dia a dia das pessoas comuns. Isso corresponde exatamente ao mecanismo da ditadura: a vigilância e o temor não ficavam restritos a atos políticos, mas penetravam a vida ordinária de toda a sociedade.
As demais alternativas não se sustentam: o texto não trata de dúvida sobre informações, nem de sonho ou imagens oníricas, nem de desenvolvimento econômico, nem de isolamento específico de crianças — o foco é o controle autoritário generalizado que gera medo coletivo.
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