TEXTO I
Logo no início de Gira, um grupo de sete bailarinas ocupa o centro da cena. Mãos cruzadas sobre a lateral esquerda do quadril, olhos fechados, troncos que pendulam sobre si mesmos em vaguíssimas órbitas, tudo nelas sugere o transe. Está estabelecido o caráter volátil do que se passará no palco dali para frente. Mas engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética dos cultos afro-brasileiros.
TEXTO II

Disponível em: www.grupocorpo.com.br. Acesso em: 2 jul. 2019.
No diálogo que estabelece com religiões afro-brasileiras, sintetizado na descrição e na imagem do espetáculo, a dança exprime uma
A questão avalia a habilidade de interpretar linguagens artísticas em diálogo com manifestações culturais e religiosas brasileiras. O espetáculo Gira, do Grupo Corpo, é apresentado em dois suportes complementares: o texto crítico, que descreve movimentos de transe (mãos cruzadas, olhos fechados, corpos pendulando em órbitas vagas), e a imagem, que mostra bailarinos em vestes brancas realizando movimentos fluidos e circulares num palco contemporâneo.
O próprio Texto I já fornece a chave interpretativa central: "engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética dos cultos afro-brasileiros". Ou seja, a dança não reproduz fielmente os rituais — ela os reelabora. O espetáculo parte de elementos das religiões afro-brasileiras (o giro, o transe, a circularidade sagrada da gira umbandista) e os transforma por meio de uma linguagem cênica erudita e contemporânea. Isso caracteriza exatamente uma reelaboração estética erudita de práticas religiosas populares: a arte letrada (balé contemporâneo profissional) ressignifica a prática popular (culto religioso afro-brasileiro) sem copiá-la.
As demais alternativas são incorretas porque: a crítica ao balé clássico não é mencionada nem sugerida; os rituais afro-brasileiros não estão extintos, o que invalida a ideia de representação de rituais extintos; não há elemento de ironia no texto ou na imagem — o tratamento é de admiração e ressignificação; e a oposição entre tradição e efemeridade não é o foco da obra descrita.
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