No cemitério, a sociedade religiosa encarregada do funeral, aterrorizada, apressou a cerimônia de tal forma que a mãe de Herzog perdeu o momento em que o caixão do filho começou a ser coberto pela terra. Quatro jornalistas que estavam presos no DOI chegaram para assistir ao sepultamento. Um se afastara, chorando. Dizia: Eles matam, eles matam! Não pergunte nada. Não podemos dizer nada. Eles matam mesmo. Falava-se baixo. Ouviram-se dois curtos discursos. O primeiro, da atriz Ruth Escobar: Até quando vamos suportar tanta violência? Até quando vamos continuar enterrando nossos mortos em silêncio? No segundo, Audálio Dantas recitou o Navio negreiro, de Castro Alves:
Senhor Deus dos desgraçados / Dizei-me
Vós, Senhor Deus / Se é mentira, se é verdade, / Tanto
horror perante os céus.
GASPARI, E. A ditadura encurralada. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
O acontecimento descrito no texto, ocorrido em meados dos anos 1970, atesta a seguinte característica do regime político-institucional vigente:
O texto narra o sepultamento de Vladimir Herzog, jornalista morto sob tortura nas dependências do DOI (Destacamento de Operações de Informações) em 1975, durante a ditadura militar brasileira. O evento evidencia a institucionalização de mecanismos repressivos pelo regime: o DOI era um órgão oficial do Estado destinado a prender, interrogar e eliminar opositores. O relato dos jornalistas presos — "Eles matam, eles matam!" — e o clima de medo generalizado no funeral confirmam que a violência não era episódica, mas estrutural e sistemática.
A alternativa correta é a que aponta para essa institucionalização da repressão como instrumento de eliminação da resistência, o que se evidencia tanto pela morte de Herzog quanto pelo encarceramento de jornalistas no próprio aparato estatal repressivo.
As demais alternativas não se sustentam: a que fala em estética popular e integração nacional remete à propaganda do regime, não à repressão física; a que menciona estratégia psicossocial e propaganda cívica também aponta para o lado ideológico, não para o violento; a que trata de cerimoniais públicos para controlar oposição inverte o fato — o funeral foi apressado para suprimir manifestações, não para controlá-las por meio do ritual; e a que fala em estatização de meios de comunicação aborda censura midiática, tema ausente do trecho.
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