Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
A descrição crítica do personagem de Machado de Assis assemelha-se às características dos sofistas, contestados pelos filósofos gregos da Antiguidade, porque se mostra alinhada à
O trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas revela um narrador que nunca buscou compreender genuinamente o conhecimento, mas apenas acumular fórmulas, vocabulário e ornamentação para uso nas conversas sociais. Ele trata o saber como instrumento de aparência e convencimento, não como busca pela verdade.
Essa postura se aproxima dos sofistas, pensadores da Grécia Antiga que eram criticados por Sócrates, Platão e Aristóteles justamente por priorizarem a arte da persuasão pelo discurso em detrimento da investigação filosófica da verdade. Os sofistas eram mestres da retórica paga: ensinavam a argumentar de forma convincente independentemente da veracidade do conteúdo, usando a linguagem como ferramenta de convencimento social — exatamente o que Brás Cubas descreve ao guardar frases prontas para "despesas da conversação".
As demais alternativas se afastam do tema: a elaboração conceitual genuína é característica da filosofia socrático-platônica; a narração alegórica pertence aos rapsodos, recitadores de poesia épica; a investigação empírica da physis (natureza) remete aos pré-socráticos; e a expressão pictográfica da pólis não tem relação com nenhuma escola filosófica relevante aqui.
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