Questão 24 — ENEM 2024 (Linguagens)

— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!

Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.

— Não pode? — perguntei com assombro. E por quê?

Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.

RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que

Resolução

O fragmento de São Bernardo, de Graciliano Ramos, encena um debate sobre a linguagem literária. Gondim defende que a escrita artística deve ser diferente da fala cotidiana — mais elaborada, artificial, distante do uso natural da língua. Paulo Honório, por sua vez, questiona essa separação, defendendo uma linguagem direta e espontânea.

A alternativa correta identifica que o fragmento contrapõe o preciosismo linguístico — representado pela postura de Gondim, que preza por um estilo elevado e afetado — às situações de coloquialidade, representadas pela fala direta, áspera e natural de Paulo Honório.

As demais alternativas não se sustentam: uma delas sugere aproximação com dialetos de baixo prestígio, o que não está em pauta; outra trata de uma suposta defesa da relação entre fala e estilo literário, quando na verdade Gondim rejeita essa relação; outra ainda fala em registro padrão da língua, confundindo norma culta com preciosismo estético; e a última tenta associar o uso formal da língua a conflitos pessoais, o que distorce o eixo central do debate, que é estético, não interpessoal.

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