Meu irmão é filho adotivo. Há uma tecnicidade no termo, filho adotivo, que contribui para sua aceitação social. Há uma novidade que por um átimo o absolve das mazelas do passado, que parece limpá-lo de seus sentidos indesejáveis. Digo que meu irmão é filho adotivo e as pessoas tendem a assentir com solenidade, disfarçando qualquer pesar, baixando os olhos como se não sentissem nenhuma ânsia de perguntar mais nada. Talvez compartilhem da minha inquietude, talvez de fato se esqueçam do assunto no próximo gole ou na próxima garfada. Se a inquietude continua a reverberar em mim, é porque ouço a frase também de maneira parcial — meu irmão é filho — e é difícil aceitar que ela não termine com a verdade tautológica habitual: meu irmão é filho dos meus pais. Estou entoando que meu irmão é filho e uma interrogação sempre me salta aos lábios: filho de quem?
FUCKS, J. A resistência. São Paulo: Cia. das Letras, 2015.
Das reflexões do narrador, apreende-se uma perspectiva que associa a adoção
O texto literário de Julián Fuks explora como a palavra "adotivo" funciona socialmente: o narrador percebe que o termo técnico parece "absolver" seu irmão das "mazelas do passado" e "limpá-lo de seus sentidos indesejáveis". Essa observação revela que a adoção carrega, no imaginário coletivo, uma representação social estigmatizada — como se houvesse algo negativo a ser apagado ou disfarçado.
A reação das pessoas ao ouvir a informação — abaixar os olhos, assentir com solenidade, disfarçar o pesar — confirma que a adoção é percebida socialmente de forma marcada, isto é, como uma forma de parentalidade que foge à norma e que carrega um estigma implícito. É exatamente essa estigmatização social da parentalidade adotiva que o narrador identifica e que lhe causa inquietude.
As demais alternativas se afastam do foco central do texto: a necessidade de aprovação de desconhecidos não é o tema central; o julgamento familiar não está presente (as reflexões tratam de reações externas ao núcleo familiar); e a inquietação entre irmãos, embora o narrador a sinta, decorre do estigma social, não é uma tensão inerente à fratria. A alternativa que sugere conflito entre o termo técnico e o vínculo afetivo capta apenas superficialmente o uso da linguagem no texto, sem alcançar a crítica social mais profunda que o narrador elabora.
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