Questão 55 — ENEM 2024 (Humanas)

A alma funciona no meu corpo de maneira maravilhosa. Nele se aloja, certamente, mas sabe bem dele escapar: escapa para ver as coisas através da janela dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. Minha alma durará muito tempo e mais que muito tempo, quando meu corpo vier a apodrecer. Viva minha alma! É meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tépido, viçoso; é meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão.

FOUCAULT, M. O corpo utópico, as heterotopias. São Paulo: Edições N-1, 2013.

Esse texto reforça uma concepção metafísica clássica que remete a um(a)

Resolução

O texto de Foucault apresenta uma reflexão sobre a relação entre alma e corpo, descrevendo a alma como algo que escapa ao corpo, sobrevive à morte e é superior a ele — luminosa, purificada, virtuosa — enquanto o corpo é associado à decadência e à limitação.

Esse tipo de oposição entre dois elementos — onde um é valorizado em detrimento do outro — caracteriza o pensamento dicotômico, que divide a realidade em dois polos opostos e hierarquizados. Neste caso, a dicotomia alma × corpo remete diretamente a uma concepção metafísica clássica, presente desde Platão (que entendia a alma como imortal e superior ao corpo material) e retomada por Descartes no dualismo mente-corpo.

As demais alternativas não se aplicam: pressuposto lógico refere-se a uma base implícita de um argumento formal; contemplação da natureza remete à admiração do mundo natural, ausente no texto; raciocínio argumentativo é uma categoria geral de pensamento, não uma concepção metafísica; e crítica à individualidade contradiz o tom do texto, que exalta a alma individual.

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