Questão 62 — ENEM 2024 (Humanas)

TEXTO I

O empirismo moderno foi, em grande parte, condicionado por dois dogmas. Um deles é a crença em certa divisão fundamental entre verdades analíticas, ou fundadas em significados independentemente de questões de fato, e verdades sintéticas, ou fundadas em fatos. O outro dogma é o reducionismo: a crença de que todo enunciado significativo é equivalente a algum construto lógico sobre termos que se referem à experiência imediata.

QUINE, W. V. O. Dois dogmas do empirismo. In: RYLE, G. et al. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

TEXTO II

Teses: 1. Somente os enunciados que possuem conteúdo factual são teoricamente significativos; enunciados que não podem, em princípio, estar fundamentados pela experiência são carentes de significado. 2. As ciências empíricas usam somente o conteúdo empírico da realidade. 3. A filosofia usa um conceito não empírico da realidade.

CARNAP, R. Pseudoproblemas na filosofia. In: SCHLICK, M.; CARNAP, R.; POPPER, K. Coletânea de textos. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

Ao comparar os textos, conclui-se que eles apresentam posicionamentos filosóficos divergentes com relação ao

Resolução

A questão avalia a capacidade de identificar divergências epistemológicas entre dois filósofos analíticos do século XX — Quine e Carnap — a respeito do que torna um enunciado linguístico significativo.

Carnap, representante do positivismo lógico (Círculo de Viena), defende no Texto II que apenas enunciados com conteúdo factual — verificáveis pela experiência — possuem significado teórico. Essa posição estabelece critérios rígidos para o uso legítimo da linguagem nas ciências: o chamado princípio de verificabilidade.

Quine, no Texto I, critica justamente os fundamentos desse empirismo, questionando dois de seus dogmas centrais: a distinção entre enunciados analíticos (baseados apenas no significado) e sintéticos (baseados em fatos), e o reducionismo que supõe que todo enunciado significativo pode ser reduzido à experiência imediata.

A divergência, portanto, é sobre o estatuto epistemológico da linguagem: enquanto Carnap delimita com precisão quais enunciados possuem significado (os empiricamente verificáveis), Quine problematiza as próprias bases dessa delimitação, rejeitando as fronteiras rígidas entre linguagem factual e linguagem analítica. Ambos discutem o que a linguagem pode dizer com sentido — e é aí que seus posicionamentos divergem.

As demais alternativas não se sustentam porque nenhum dos textos trata de moralidade, metafísica como objeto central, ontologia ou estética.

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