Antes do inverno chegar.
Ela tinha olhinhos brilhantes. Os mesmos de antes. Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade. Dos sete filhos e dos muitos anos de trabalho dentro e fora de casa.
Ela fazia ambrosia, bolo de fubá e pedacinhos de queijo. Antes do inverno, ela plantava flores novas e diferentes para nos esperar nas próximas férias de verão.
Ela tinha o jeito de menina. Menina sapeca, correndo na grama seca do cerrado. O mesmo jeito de antes. Antes do marido (e mesmo com o marido). Antes do cansaço dos anos. Antes da dureza do trato com a terra.
Ela tinha histórias. Compridas, curtas, divertidas e verdadeiras. Mas isso foi antes. Antes das lembranças se bagunçarem feito bolas coloridas de Natal esperando para serem montadas na árvore.
Eu era sua neta. Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta. Mas ela é e sempre será minha avó.
PERSON, C. R. Borboletas no estômago: porque às vezes o título precisa
ser adolescente e clichê, já que a vida exige sermos tão adultos.
São Paulo: Ed. das Autoras, 2021
A narradora, ao resgatar memórias da história de vida da avó, faz uso recorrente da locução “antes de”. Esse termo colabora para a progressão temática na medida em que
A questão avalia coesão e progressão temática, ou seja, como um elemento linguístico contribui para o encadeamento das ideias ao longo do texto. O foco está na função da locução “antes de”, recorrente na narrativa.
A narradora utiliza repetidamente “antes de” para evocar um tempo passado em que a avó era plena, antes da chegada do Alzheimer. Esse recurso cria um contraste entre o que a avó era e o que ela se tornou, fazendo com que as memórias resgatadas ressignifiquem o momento presente da relação entre neta e avó. A frase final reforça isso: apesar de tudo o que se perdeu, ela “é e sempre será minha avó”. Por isso, a locução organiza o texto em torno de um presente carregado de sentido pelas lembranças do passado.
As demais opções se equivocam: a locução não marca eventos simultâneos, mas sim a relação entre passado e presente. Também não funciona como simples comparação entre lembranças, nem indica uma mera sequência cronológica de ações consecutivas. Da mesma forma, ela não introduz uma explicação ou causa para as memórias, mas as situa temporalmente para revelar a transformação vivida.
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