Só entende os corações desse lugar quem mergulha nesse mar a perder de vista e recoberto de cana caiana, cana fita, cana roxa, cana-de-macaco, açúcar, melado, rapadura, aguardente, fumo, mandioca, quiabos, pimentas, moendas, frutas, fruta-pão, sobrados, senzalas, tachos, casa de purgar. Um reino dentro de outro, com tudo o que se tem direito: reis, rainhas, príncipes e princesas, bobos da corte, cortesãos, conselheiros e escravos, muitos escravos. […]
A corte do massapé, como qualquer outra na história da humanidade, fazia tudo para não deixar escapar nenhum mísero grão dos seus domínios para quem estivesse de fora do seu apertado círculo. Os nomes se repetiam de pai para filho, para sobrinho, para netos e bisnetos, de forma concêntrica e repetitiva, para que não pairasse nenhuma dúvida de que são todos da mesma parentela. As farinhas todas num mesmo saco brasonado.
CRUZ, E. A. Água de barrela. Rio de Janeiro: Malê, 2018.
Nesse fragmento, o narrador enumera o resultado do trabalho com a terra, o qual, no contexto em que aparece,
O fragmento de Água de barrela, de Eliana Alves Cruz, utiliza uma longa enumeração de produtos da terra — cana, açúcar, melado, rapadura, fumo, frutas — para, em seguida, revelar a estrutura social que se erguia sobre essa riqueza: reis, rainhas, princesas e, sobretudo, muitos escravos. A enumeração não celebra a fartura em si, mas expõe como toda essa produção estava concentrada nas mãos de uma elite fechada.
O segundo parágrafo deixa explícito o sentido: a "corte do massapê" fazia tudo para não deixar escapar nenhum grão de seus domínios para fora do seu "apertado círculo". Os nomes se repetiam de pai para filho, de geração em geração, de forma "concêntrica e repetitiva" — imagem que traduz a perpetuação dos privilégios de classe, transmitidos como herança dentro de um mesmo grupo familiar.
Portanto, a enumeração dos frutos da terra funciona como contraste irônico: toda aquela riqueza, em vez de ser distribuída, alimentava e sustentava uma hierarquia social rígida e excludente, espelhando a permanência histórica dos privilégios de classe. As demais alternativas ignoram essa dimensão crítica do texto, interpretando a enumeração como elogio à produção agrícola, ao trabalho coletivo ou às gerações — leituras que o segundo parágrafo contradiz diretamente.
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